As costas largas da pandemia

#017 25 Saúde mental preocupa

A expressão popular com sentido figurado “costas largas”, era muito utilizada no passado, para representar uma situação em que alguém assumia ou recebia a responsabilidade ou culpa para encobrir ou proteger outra pessoa por erros cometidos, ou para se referir a alguém que tinha proteção ou influência, geralmente por contar com alguma pessoa poderosa para lhe dar retaguarda.

Atualmente, toda e qualquer insuficiência cognitiva, emocional ou comportamental é atribuída à pandemia, seja no convívio familiar, social ou profissional.

A meu ver, imputa-se à pandemia mais do que ela merece. Sem querer minimizar seus efeitos, cuja extensão ainda não é possível avaliar na totalidade, a verdade é que, hoje em dia, tudo o que não se consegue diagnosticar ou explicar, é jogado na sua conta.

Felicidade x saúde mental

Se por um lado, o mais recente relatório anual sobre felicidade apoiado pela ONU, indica que o Brasil melhorou 6 posições no ranking (já somos o 36o. colocado, olha que coisa boa!!!), por outro, o resultado da aplicação de um questionário sobre saúde mental do trabalhador, o SRQ-20, revelou dados alarmantes com relação aos índices de adoecimento devido a questões ligadas ao trabalho propriamente dito ou ao ambiente onde ele se desenvolve.

Riscos psicossociais e a NR 1: novos “tempos modernos”

Resgatando o memorável filme de Chaplin de 1936, que retrata as agruras vividas pelo trabalhador no despertar do mundo industrializado, podemos arriscar dizer que voltamos 90 anos ao passado?

Sim, mas agora para falar dos riscos psicossociais que passaram a integrar a família dos riscos ocupacionais, antes composta pelos riscos físicos, químicos,  biológicos, ergonômicos e de acidentes.

É importante rever a NR-1?

A necessidade de revisão da NR-1 (Norma Regulamentadora do Ministério do Trabalho e Emprego que trata da saúde e segurança no trabalho) para incluir os riscos psicossociais se justifica a partir de diversas mudanças na sociedade, no mundo do trabalho e da crescente atenção à saúde mental dos trabalhadores. Trata-se de uma questão tripartite: governo, sociedade civil e empresas. Só recordando alguns dos principais fatores que motivaram essa atualização.

1. Mudança no perfil dos riscos ocupacionais

Com a automação, digitalização e novas formas de organização do trabalho, os riscos físicos e químicos diminuíram em muitos setores, enquanto os riscos psicossociais aumentaram (estresse, assédio, burnout e sobrecarga mental).

2. Pressão da sociedade por normas mais alinhadas às diretrizes internacionais

A OIT (Organização Internacional do Trabalho) e a OMS (Organização Mundial da Saúde) vêm destacando a importância dos riscos psicossociais. O Brasil, como país membro, passou a incorporar essas diretrizes.

3. Maior visibilidade dos transtornos mentais relacionados ao trabalho

Estatísticas recentes do INSS e o resultado de estudos acadêmicos  correlatos mostraram que os afastamentos por depressão, ansiedade e estresse ocupacional estavam aumentando — e ainda eram pouco considerados pelos legisladores brasileiros.

4. Revisão ampla das NRs iniciada em 2019

O governo federal iniciou um processo de modernização das NRs, e a NR-1 — que trata das disposições gerais e do gerenciamento de riscos — foi um ponto de partida. Com o novo Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e o PGR (Programa de Gestão de Riscos), houve necessidade de incluir todos os tipos de riscos, inclusive os psicossociais.

5. Demandas da sociedade e das empresas

Houve, também, pressão de sindicatos, profissionais de saúde e empresas preocupadas com queda da produtividade, aumento do absenteísmo e degradação do clima organizacional.

Todas as causas importam.

Mais do que simples números, os elevados índices de doenças mentais atualmente diagnosticadas têm causas multifatoriais, ligadas a mudanças sociais, culturais, econômicas, biológicas e naturais. Por exemplo:

●     Estilo de vida moderno

Excesso de estímulos e conectividade constante (redes sociais, notificações, multitarefa), falta de sono de qualidade, má alimentação e sedentarismo engrossam essa lista. Pressões por produtividade e sucesso — especialmente no trabalho e na aparência.

●     Isolamento social e solidão

Apesar da hiperconectividade digital, muitas pessoas se sentem sozinhas ou emocionalmente desconectadas. Laços comunitários e familiares se mostram mais frágeis do que em gerações passadas.

●     Desigualdade e insegurança

Problemas econômicos, desemprego, violência, falta de acesso à saúde e educação aumentam as desigualdades sob qualquer ângulo. Viver sob estresse constante mina a saúde mental, de uns mais, de outros menos.

●     Mudanças culturais e sociais

Expectativas irreais alimentadas pela comparação com padrões idealizados (muitas vezes nas redes sociais) e a maior exposição a notícias negativas, crises globais, mudanças climáticas, guerras etc. ampliam esse espectro.

  • Maior conscientização e diagnóstico

Hoje há menos tabu em falar sobre saúde mental, o que leva mais pessoas a buscar ajuda e receber diagnóstico — o que também aumenta os números relatados.

●     Predisposição genética e fatores biológicos

O fato é que algumas pessoas têm maior vulnerabilidade a transtornos mentais por fatores hereditários ou neurológicos. A ciência avança nos estudos do impacto dos traços genéticos sobre o comportamento das pessoas. 

  • Eventos climáticos extremos

Cada vez mais frequentes e ocorrendo em locais inéditos, as tragédias provocadas pelas enchentes, secas, furacões e tsunamis potencializam a insegurança e o pânico, especialmente nas camadas mais vulneráveis da população mundial.

Esse beco tem saída?

Felizmente, sim. Isso é o que veremos em um próximo artigo.

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