Em meio a inúmeras polêmicas motivadas tanto pela série Adolescência, como pelo debate sobre o uso ou não de celulares na sala de aula entre outros tantos temas que têm pautado as rodas de conversa e os churrascos de domingo, me pus a pensar sobre um dos papéis mais importantes da educação, se não o único, que é o de educar.
Vou contar dois episódios que ocorreram comigo, um recente e outro há mais de 50 anos. Que cada um tire suas próprias conclusões.
Há um mês….
Certo dia, manobrando o carro na garagem, percebi que o farol direito baixo do carro não acendia. Bastaria, então, me dirigir a um posto de atendimento da seguradora e as lâmpadas externas do veículo seriam revisadas e, se fosse o caso, gratuitamente trocadas. Mas aí entra aquela questão da prioridade e a troca das lâmpadas foi colocada em segundo plano, procrastinada é bem o termo.
Dias depois, troquei de carro com meu filho devido ao rodízio de placas e ele percebeu que o farol não acendia e me alertou para o fato. Eu pedi que ele providenciasse o reparo o mais rápido possível uma vez que essa situação era passível de multa por infringir o Código Brasileiro de Trânsito. Não deu outra. Recebi a notificação pelo correio e, pasmem, com que celeridade, em menos de uma semana da data da infração.
Conversando sobre a minha “sorte” com um amigo alemão que faz academia comigo, ele me disse que na Alemanha quando algum agente de trânsito detecta uma irregularidade dessa natureza, é emitido um aviso para a casa do proprietário do veículo que tem um prazo de três dias para reparar o problema e notificar a autoridade competente da providência tomada. Caso não o faça nesse prazo é lavrada a multa correspondente ao ato infracional.
Fica a pergunta: já que nós brasileiros somos mestres em copiar soluções vistosas de outros povos, por que não adotar esse pequeno gesto que educa em lugar de punir, mesmo porque a queima do farol pode ter acontecido momentos antes de o agente de trânsito ter flagrado a irregularidade sem que o proprietário ou o condutor soubesse.
Há 53 anos…
Assim que me formei em engenharia, no início da década de 70, fui fazer pós-graduação no INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais em São José dos Campos. Tive a oportunidade de apresentar um trabalho em um congresso de bioengenharia no Rio de Janeiro. Regressando a São José pela Dutra me vi diante de uma daquelas retas intermináveis com leves subidas e descidas que chegam a dar sono de tão monótonas. Eu tinha reunião com o Diretor Geral da instituição e o horário conspirava contra mim: conclusão, ” sentei a bota”, como se diz na gíria. Naquele tempo não havia radar e os policiais rodoviários se valiam de um binóculo e de um cronômetro para fiscalizar os excessos de velocidade.
Não deu outra.
O policial mandou parar, pediu documento do carro e a CNH. Virou-se para mim e disse: “o senhor está com pressa?”. Sim, respondi, tenho uma reunião às 15 h em São José com o manda-chuva do INPE e estou atrasado.
Em lugar de emitir a multa, o agente me disse para ficar parado 10 minutos antes de seguir viagem mesmo porque com aquela pressa talvez eu não chegasse para o compromisso.
Pois bem, permaneci ali “pensando na vida” e ao retomar a viagem me mantive o tempo todo dentro dos limites de velocidade permitidos.
O “presta atenção” do policial valeu muito mais do que a multa que ele poderia (e com razão) ter aplicado.
E, por fim, eu pergunto: Qual o real papel da educação?