O Dia Que Não Queríamos Que Chegasse

#035 25 LFV

Tributo a Luis Fernando Veríssimo

Hoje, 30 de agosto de 2025, o Brasil amanheceu mais silencioso, mais cinzento. A notícia da partida de Luis Fernando Veríssimo, aos 88 anos, ecoou como um trovão em um dia de sol, pegando-nos de surpresa, mesmo sabendo da inevitabilidade da morte. Veríssimo, o mestre das palavras, do humor sutil e da crônica que desnudava a alma brasileira, nos deixou. E, paradoxalmente, sua morte nos faz refletir sobre um de seus temas mais caros: a espera pelo dia ideal.

Em diversas de suas obras, Veríssimo, com sua perspicácia inigualável, abordou a tendência humana de adiar a felicidade, de viver em função de um futuro idealizado. Quantas vezes não nos pegamos pensando: “Ah, quando eu for rico, serei feliz”; “Quando eu tiver aquele emprego, minha vida estará completa”; “Quando o dia perfeito chegar, então sim, viverei plenamente”? Ele nos lembrava, com um sorriso irônico nas entrelinhas, que a vida acontece no agora, nas pequenas coisas, nos dias imperfeitos que compõem a nossa existência.

Mas hoje, o dia que chegou não foi o dia da riqueza, da plenitude ou da felicidade adiada. Foi o dia que, se pudéssemos, teríamos adiado indefinidamente. Foi o dia em que a caneta de Veríssimo silenciou, em que seu olhar perspicaz se fechou para o mundo que tanto soube descrever. Foi o dia em que perdemos não apenas um escritor, mas um observador atento, um crítico mordaz e, acima de tudo, um amigo invisível que nos acompanhava em nossas leituras diárias.

Veríssimo nos ensinou a rir de nós mesmos, a enxergar o absurdo no cotidiano, a valorizar a inteligência e a simplicidade. Ele nos mostrou que a vida é uma crônica em constante construção, cheia de personagens peculiares e situações hilárias, mas também de momentos de profunda reflexão. Sua partida é um lembrete doloroso de que, por mais que esperemos por um amanhã glorioso, há dias que chegam sem aviso, dias que marcam o fim de uma era e nos deixam com um vazio difícil de preencher.

Que a obra de Luis Fernando Veríssimo continue a nos guiar, a nos fazer rir e a nos provocar. Que suas palavras, agora eternizadas, nos lembrem de viver cada dia com a intensidade que ele dedicou à sua arte. E que, ao invés de esperar pelo dia perfeito, celebremos a vida, mesmo nos dias em que a tristeza se faz presente, como hoje. 

O dia que não queríamos que chegasse, chegou. Mas o legado de Veríssimo, esse, permanecerá para sempre.

Descanse em paz, tchê!

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