Quem tem medo dos NOLT’s?

26 01 17 Quem tem medo dos NOLTs

Durante muito tempo, falamos sobre etarismo como um problema estrutural das organizações. Tema de um artigo que publiquei aqui recentemente, o conceito parecia pacificado e circunscrito a debates acadêmicos ou a políticas de diversidade ainda tímidas, mas algo mudou.

Nos Estados Unidos, ganha força um novo movimento e um novo termo: NOLT (New old living trend), ou seja, pessoas que não aceitam serem rotuladas depreciativamente de “idoso “, “melhor idade”, “idade de ouro “ etc. E o termo diz muito sobre o momento que estamos vivendo.

Os NOLT’s representam uma categoria crescente de pessoas que, apesar da idade cronológica avançada, se recusam a “vestir o pijama” da aposentadoria precoce. Continuam produtivas, curiosas, atualizadas e, sobretudo, dispostas a trabalhar lado a lado com profissionais muito mais jovens, sem nostalgia paralisante nem arrogância geracional.

Experiência pessoal recente

Semana passada, ao renovar minha CNH que, de forma preconceituosa, vence a cada 3 anos, vivi uma cena que resume bem essa discussão. No exame oftalmológico, fui atendido por um médico que, ao perguntar minha idade, revelou em tom jocoso que era 10 anos mais velho, ou seja, tinha 87 anos. O “velho”estava em plena atividade, com precisão, atenção e autoridade técnica, em um posto do Poupatempo, interagindo com todo o aparato tecnológico com maestria.

Nenhum sinal de improdutividade. Nenhuma limitação visível. Apenas experiência em estado puro.

Um pouco de estatística faz bem

Dados recentes mostram que cerca de 19% dos americanos com 65 anos ou mais continuam empregados, quase o dobro da proporção registrada na década de 1980, e que a força de trabalho global está envelhecendo rapidamente, com a participação de pessoas com 55+ anos subindo de menos de 50% para mais de 66% nas últimas décadas em países da OCDE.

No Brasil, 1 em cada 4 idosos (60+) estava ocupado no mercado em 2024, segundo o IBGE — um sinal cristalino de que muitos profissionais não querem ou não podem deixar de contribuir, em todos os sentidos.

Agora, para refletir

Esses poucos dados nos levam a uma pergunta incômoda: até quando empresas — ou melhor, as pessoas que decidem dentro delas — continuarão tratando a idade como um fator limitante automático?

Até quando o número do RG (agora do CIN – Carteira de Identidade Nacional) falará mais alto do que a entrega, a capacidade de adaptação e o repertório acumulado?

O medo dos NOLT’s não é sobre performance; é sobre desconforto. Eles desafiam narrativas prontas, quebram hierarquias invisíveis e expõem preconceitos silenciosos. Mostram que o futuro do trabalho não é apenas jovem ou sênior, mas intergeracional.

Ignorar os NOLT’s é desperdiçar talento, integrá-los é uma decisão estratégica.

A verdadeira pergunta não é se eles ainda têm espaço, mas se as organizações estão maduras o suficiente para reconhecê-los.

Porque, no fim, quem tem medo dos NOLT’s talvez tema menos a idade… e mais o espelho que ela oferece.

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