Remédio ou veneno: você decide!

Entre o remédio e a droga

Vivemos um tempo de intensa polarização. Em cenários assim, posições radicais tendem a ganhar espaço, quase sempre distantes do que se poderia chamar de racionalidade humana. A famosa máxima de Paracelso — a diferença entre o remédio e a droga é a dose — nunca foi tão atual.

Recentemente, o mundo assistiu à decisão tomada pelo presidente de uma grande nação ao adotar medidas duras contra um país vizinho nosso, sob a justificativa de combater o narcotráfico. O ponto central da reflexão não está na intenção declarada, mas na forma como a decisão foi conduzida. Afinal, trata-se de um país que, embora afetado pelos efeitos do tráfico, não figura como produtor de drogas.

Quando observamos com mais atenção o tabuleiro geopolítico, é legítimo questionar se as motivações reais se limitam ao discurso oficial. A região em questão abriga cerca de 17% das reservas mundiais de petróleo, um ativo estratégico que, historicamente, sempre influenciou decisões, alianças e intervenções internacionais. Ignorar esse dado seria, no mínimo, uma análise incompleta do contexto.

Em cenários altamente polarizados, é comum que pessoas, governos e até organizações se apeguem a narrativas extremadas, muitas vezes simplificadoras e desprovidas de fundamentos, que oferecem conforto ideológico, mas pouco esclarecimento real. 

Em meio à pirotecnia o foco passa a ser “quem está certo” ou “quem está errado”, enquanto o contexto, as motivações subjacentes e, principalmente, os desdobramentos de médio e longo prazo das decisões ficam em segundo plano. 

Narrativas mobilizam emoções; análise exige investigação, esforço, coleta de dados e disposição para lidar com a complexidade.

Decisões podem até ser corretas na essência, mas profundamente equivocadas na execução. 

O combate ao crime organizado é legítimo e necessário. No entanto, quando a ação extrapola seus limites, gera efeitos colaterais previsíveis: desgaste diplomático, tensões regionais, prejuízos econômicos e, sobretudo, a erosão da confiança entre nações.

Esse raciocínio não se restringe à geopolítica. No mundo corporativo, gestores enfrentam dilemas semelhantes. Cortes de custos, reestruturações, metas agressivas ou mudanças culturais podem ser decisões acertadas em sua intenção estratégica, mas desastrosas quando impostas sem diálogo, proporcionalidade e respeito ao impacto humano.

O papel do gestor — seja ele um CEO ou um chefe de Estado — exige serenidade. É preciso avaliar cuidadosamente o problema, compreender o contexto, ouvir diferentes perspectivas e, principalmente, reconhecer os limites do próprio poder. O direito de decidir nunca pode se sobrepor ao direito do outro de existir, produzir e se desenvolver.

Em qualquer esfera de poder, decisões desproporcionais revelam falhas de governança. Na geopolítica, assim como nas organizações, a ausência de freios institucionais, de transparência nas motivações e de avaliação de impactos amplia riscos sistêmicos. 

Não se trata apenas de força, mas de responsabilidade sobre as consequências geradas — inclusive aquelas que não aparecem nos comunicados oficiais.

Sob a ótica de ESG, ações que desconsideram o equilíbrio regional, os efeitos sociais e a sustentabilidade das relações entre países contradizem os próprios princípios que muitas nações e corporações afirmam defender. 

Estratégia não é impor vontade pelo poder, mas alinhar objetivos, meios e valores de forma coerente e sustentável no longo prazo.

Liderar, seja no comando de um país ou de uma empresa, exige mais do que autoridade formal. Exige governança madura, estratégia consciente e responsabilidade ética. 

Até porque, quando a decisão ignora esses pilares, o custo pode ser alto demais — e, como sempre, pago por muitos que não participaram da escolha.

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