O primeiro salão de beleza de que se tem notícia foi inaugurado em 1635 em Paris. Em 1983, um brasileiro visionário, filho de um famoso cantor que fez sucesso cantando músicas românticas nas décadas de 1950 e 1960, identificou uma oportunidade com a recente chegada do metrô à zona norte da cidade de São Paulo; a estação Santana foi inaugurada em 1975. A grande sacada foi implantar uma linha circular de van gratuita da estação Santana até o seu salão, que ficava no Jardim São Paulo, há poucos quilômetros dali, mas fora de mão para quem vai de transporte público. O pequeno veículo fazia o traslado ida e volta das clientes. O lema do salão era “Cabelo crespo tem solução”. Na primeira sessão ele avaliava o caso e propunha um tratamento planejado que, normalmente, era de longo prazo. E, aqui pra nós, não era nada barato. O seu público eram pessoas de poucas posses que empenharam seu orçamento apertado para cuidar da aparência, especialmente, dos cabelos.
Me inspiro nesse lema para dizer que a saúde mental também tem solução; não quero dizer que seja fácil e nem rápido; mas, insisto, jeito tem, só é preciso saber como (e ter vontade de) fazer.
A proposta.
Já vimos que a saúde mental no ambiente de trabalho é um desafio a ser abraçado por governo, empresas e sociedade com papéis complementares.
Vou resumir de forma prática o que cada um pode (e, a meu ver, deve) fazer.
Governo
- Criar e aplicar leis que protejam a saúde mental dos trabalhadores (por exemplo, regulamentar limites de jornada e garantir direito à desconexão).
- Incentivar programas de prevenção e tratamento de transtornos mentais, inclusive com políticas públicas de saúde.
- Fiscalizar ambientes de trabalho para coibir todo tipo de assédio – moral ou sexual, excesso de carga de trabalho, precarização e outras práticas abusivas.
- Criar campanhas de conscientização sobre a importância da saúde mental no trabalho.
Empresas
- Implementar programas de bem-estar (apoio psicológico, ginástica laboral, horários flexíveis, pausas programadas).
- Promover uma cultura organizacional saudável: respeito, valorização, comunicação aberta e inclusão.
- Treinar líderes e gestores para reconhecer sinais de sofrimento emocional e agir de forma acolhedora.
- Estabelecer canais de apoio anônimos (como linhas de escuta) e políticas claras contra assédio e discriminação.
- Incentivar o equilíbrio entre vida profissional e pessoal.
Sociedade (incluindo trabalhadores e sindicatos)
- Reduzir o estigma sobre saúde mental; um bom começo é falar abertamente sobre o tema em casa, escolas, redes sociais e outros espaços de convivência.
- Cobrar atitudes das empresas e governos — na condição de consumidores, eleitores e cidadãos.
- Apoiar colegas em situação de sofrimento, sem julgamento.
- Buscar informação de qualidade sobre saúde emocional e autocuidado e apoiar sua divulgação.
Resumo prático:
Governo cria o ambiente legal;
Empresas constroem o ambiente interno;
Sociedade muda a cultura do entorno.
Quando todos agem juntos, criando sinergia, o trabalho deixa de ser fonte de adoecimento e vira parte da solução.